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The Newsroom: Crise do Jornalismo e Construção dos Fatos

Gabriel Caetano
Escrito por Gabriel Caetano em janeiro 25, 2019
The Newsroom: Crise do Jornalismo e Construção dos Fatos

“A informação divulgada pelos meios de comunicação pública se pautará pela real ocorrência dos fatos e terá por finalidade o interesse social e coletivo.”
Art. 3º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros

É a segunda vez que pego The Newsroom para assistir. E são muitos os pontos que me fizeram revisitar a série: o clima bélico entre a atual presidência da república e a imprensa, a chegada da rede CNN na programação paga brasileira, a maneira como mentiras e calúnias tem sido difundidas até serem socialmente acordadas como verdades me levaram a crer que na série encontraria o ponto de meditação perfeito para tentar entender o campo minado que virou o terceiro poder. Bem, estava certo. Percebi como a história equilibra e contrasta muito bem o idealismo presente no imaginário coletivo do que representa o ofício com as forças que influenciam os agentes veiculadores de comunicação, além do informar com o influenciar.  É preciso abstrair tudo isso para entender o que me move a redigir este e-mail: o que está levando as pessoas a desprestigiarem a imprensa?

Will McAvoy (Jeff Daniels) é um âncora de prestígio num canal fictício da televisão a cabo estadunidense. Ele criou uma redoma para se manter sempre em neutralidade. Isento num mundo polarizado, não desagrada ninguém, mantém a sua popularidade e desfruta do que ela pode proporcionar. Após perder a cabeça com uma pergunta idiota num debate aberto, ele tira um período sabático do jornal que apresenta e ao voltar, é submetido pelo seu chefe a trabalhar com uma nova diretora, Mac… sua ex-noiva (Emily Mortimer). Mac tem uma proposta para o programa de Will: mudar o foco de seu programa para a relevância das notícias e retirar dele a sua pecha de astro. Newsroom é uma produção da HBO e tem três temporadas.

É uma série que me trouxe muito do entendimento que tenho até hoje sobre como é e como deveria ser um espaço de trabalho. Sobre companheirismo, compromisso, profissionalismo e propósitos pessoais… Especialmente, sobre o que podemos conquistar quando o coletivo respeita cada uma de suas partes. O roteiro referencia e provoca as situações que vivemos do lado de cá da tela a todo momento, encara sem nenhuma sutileza o ponto de que hoje as pessoas escolhem os fatos em que desejam acreditar. Foi assim da primeira vez que assisti e é ainda mais assustador e real hoje. Agora que estou reassistindo, o que tem mais me chamado a atenção é o ‘fator responsabilidade’ do jornalista.

Pausa para uma digressão egoísta. Você deve mesmo estar se perguntando o que diabos eu entendo de jornalismo, não é? Bem…

…Minha relação com o jornalismo vem da infância: Alguns dos meus heróis eram jornalistas: TintinSuperman (a real? Gostava mesmo era do Jimmy Olsen), o Homem-Aranha; Também é desde criança que alimento uma das minhas maiores paixões: revistas. Era com elas que gastava os cinco reais que meu pai me dava todo sábado para passar a semana (cinco reais valiam alguma coisa nos anos 90, os meus não passavam do primeiro dia). Sempre fui um rato de bancas, quando passava na porta da única que havia em Nova Serrana, gastava algum tempo ali mesmo que não tivesse dinheiro. – Na adolescência, ao mesmo tempo que alimentava o sonho de ser rockstar, também me interessei por jornalismo esportivo. Então, saí do ensino médio e resolvi cursar Comunicação Social, ênfase em Publicidade e Propaganda. Durante boa parte do curso considerei trocar minha grade curricular para obter a formação de jornalista. Nas matérias que dividia a sala com os colegas do jornalismo encontrava um espaço mais receptivo e confortável. Enfim, persisti com a Publicidade, a Publicidade salvou a minha vida e qualquer dia conto isso aqui.

Ainda sinto afeto pelo jornalismo e enxergo os amigos com quem me formei como colegas de profissão. Estava na faculdade quando veio o fim da obrigatoriedade do diploma para exercer a função e também estava lá quando o tradicional Jornal do Brasil encerrou sua publicação impressa para se dedicar apenas ao formato digital, foi uma bomba na época. Em paralelo, a Folha de São Paulo também passava por um processo de reinvenção com um novo projeto editorial e de diagramação para se adaptar ao público que tinha novas exigências. Vivi algumas daquelas mudanças na profissão em minha própria pele. Foram muitas reviravoltas compressas naqueles quatro anos (entre 2008 e 2011, presenciamos a eleição que elegeu Barack Obama, o rompimento da Bolha Imobiliária… não faltou pano pra manga). Como um profissional de comunicação, enxergo as esferas da publicidade, do jornalismo, das relações públicas e até do cinema como uma coisa só, sem descartar suas individualidades. Elas são distintas e importantes dentro de suas diferenças e focos, mas confluem numa coisa só.

Encaramos um momento em que a sociedade está em constante conflito contra a imprensa tradicional. Um estudo de 2017 apontou que apenas 17,9% dos profissionais em sua amostra acreditam que o “o jornalismo oferece uma narrativa verdadeira dos eventos e questões diárias num contexto que explica seus significados”, no Brasil. Há razões para essa desconfiança, mas existe também um porém. Hoje, há um trabalho corrente para desmoralizar o jornalismo no país. Acontece dessa maneira para que não haja qualquer discussão sobre censura, um contexto é criado para que se conceba a ideia de que quem reporta é o vilão, um sujeito desmoralizado.

Profissionalmente, por vezes o jornalista atende exigências de sua empresa contratante para continuar em seu emprego. No ano passado, soubemos que uma rede de televisão em nosso país deixou sua equipe de notícias desconfortável com o cerceamento de qualquer abordagem crítica ao presidente que acabou vencendo as eleiçõesWill passa por uma situação parecida logo nos primeiros episódios de Newsroom quando confronta o Tea Party – uma espécie de MBL norte-americano (embora o movimento brasileiro se assimile melhor ao Students for Liberty, também alimentado pela Atlas Network. Se interessa? Leia aqui.), que compõe a ala ultraconservadora do partido republicano e que por trás de seu “movimento espontâneo”. A partir daí, a equipe do News Night, o jornal apresentado por Will se vê ameaçado por dentro da própria emissora. É bom recordar que empresas tem interesses. Interesses que visam apenas o lucro.

A série é bem elucidativa quanto a isso, com um alto teor utopista: a notícia deveria vir em primeiro lugar. Escuto desde os tempos de faculdade que o jornalismo exerce um papel fundamental para uma democracia. Isso me leva a crer que o estado de crise do jornalismo no Brasil é consequência de nossa crise democrática. A equipe do News Night se empenha em seu trabalho movida por idealismo. À sua maneira, The Newsroom apresenta quais são os obstáculos que impedem uma classe de exercer seu trabalho de maneira digna e também nos guia com uma direção. Nesse momento, é necessário nos atentarmos apenas aos fatos. É preciso foco.

Fatos não são de esquerda nem de direita, eles não ocupam qualquer lugar no espectro de orientação política. Eles não tem donos, embora muitos julguem assim. Podem ser maquiados, subvertidos, é verdade… Mas são fatos e são o que são. Para encerrar com uma frase bem clichê evoco George Orwell: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo resto é publicidade”.