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Quando sonhos e vidas são interrompidas em função do descaso

Gabriel Caetano
Escrito por Gabriel Caetano em fevereiro 8, 2019
Quando sonhos e vidas são interrompidas em função do descaso

No Brasil, está cada vez mais difícil encontrar motivos manter o otimismo. Acordando essa manhã, vi logo a notícia que um incêndio tomou conta do CT do Flamengo, o Ninho do Urubu. Houveram vítimas fatais e alguns outros feridos. 8 de fevereiro de 2019. São 13 dias após o rompimento da barragem em Brumadinho, pouco mais de cinco meses do incêndio no Museu Nacional do Brasil no ano passado. Como se não fosse desgraça o suficiente, ainda hoje, moradores de Barão de Cocais e Itatiaiuçu (na região da Grande BH) foram retirados de suas casas devido ao risco de mais um rompimento de barragem, cerca de 700 pessoas removidas em números totais. Parece mesmo que estamos fadados a continuar emendando luto atrás de luto. E nada me tira da cabeça que não são eventos apenas sintomáticos, como também simbólicos. Infelizmente.

No Rio de Janeiro, dez jovens entre 14 e 17 anos vieram a óbito com incêndio. Você já quis ser jogador de futebol? Eu já. E é por isso que essa notícia me entristece demais. Esses adolescentes não moravam no Rio de Janeiro, foram levados para lá e afastados de suas famílias para realizarem seus sonhos. Costumo dizer que somos feitos de sonhos interrompidos desde a infância, somos obrigados a abrir mão de várias coisas ao longo da vida. Os primeiros amores se casam com outras pessoas, as carreiras que mais desejamos são deixadas de lado por diversas circunstâncias e situações que simplesmente nos acontecem e as vezes uma força maior nos afasta de gente muito querida e fundamental para nossos planos. Só tente se lembrar de quando você era criança e de como gostaria de viver seu sonho como astronauta ou bailarina, pode também ser algo como conhecer ou morar em um outro país… Esses sonhos podem ser interrompidos ou adiados, mas triste mesmo, é quando junto dos sonhos, também se vai a vida.

Também há muita coisa envolvida em Minas Gerais, uma sirene tocou por volta de 1h e os moradores foram obrigados se retirarem de suas casas. Após um dia de trabalho, não puderam nem descansar direito para deixar as residências onde estão seus bens e o resultado de seu trabalho em consequência do pânico coletivo. Às 07h da manhã, as obrigações voltam ao normal, com aquela nuvem negra que o pior pode acontecer a qualquer hora e mesmo longe de casa, um desastre pode levar embora os sonhos já realizados de famílias inteiras e mais uma vez, também outras vidas.

Cada uma dessas tragédias tem nomes e responsáveis. Órgãos precisam ser cobrados, pessoas e empresas precisam ser julgadas, caso contrário, estaremos apenas nos conformando em viver num ciclo de horror. Hoje, não tem chá de camomila de que me acalme, não tem cerveja que me anime e não tem poesia que me faça olhar o lado da vida em função do crime de interromper sonhos e vidas. Gostaria de encerrar com uma mensagem de esperança, lembrar que sempre existe um motivo pelo qual vale a pena lutar, mas… é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Todos os dias. Mas hoje, só posso compartilhar mesmo a minha angústia e o desejo de que a próxima semana seja melhor.